Filme 06: Sensorialidade, fragmentação e arte em A grande beleza
FFILME 06: A Grande Beleza (Paolo Sorrentino, 2013, 2h 52m)
MÓDULO: O contemporâneo em questão
DATA DA EXIBIÇÃO: 10/08/2018
HORÁRIO: 15:30 h
SALA: Laboratório Multimídia (Bloco F - UEMS - UUCG)
Em busca de sentidos na produção artística contemporânea: fragmentos sobre o saber sensível no filme A Grande Beleza
Keyla Andrea Santiago e Thaís Lobosque Aquino
É sempre
assim que termina, com a morte,
no
entanto antes houve a vida,
escondida
embaixo do blá, blá, blá.
É tudo
sedimentado por baixo das câmeras
e do
barulho: o silêncio e o sentimento, a emoção
e o
medo. Os frágeis e inconstantes vislumbres de beleza...
Jep Gambardella
O
estouro de um canhão ovacionado por um grupo de pessoas já no início da
narrativa fílmica e a morte súbita de um turista que tenta captar nas lentes de
sua câmera um pedaço que ainda pode haver restado da grandiosa Roma
pré-anunciam o caos de uma cidade em plena decadência, que gera a nostalgia de
uma beleza há muito escondida em seus monumentos, na música vocal e nas fontes
um dia limpas. Mostra a crueza das relações humanas, ali desnudas de seus
truques cotidianos, em um espetáculo que não cansa de estrear seus miseráveis
dias em festas regadas a entorpecentes, entretenimento frívolo, uma busca
incessante por algo que se perdeu: a grande beleza.
Consciente
dessa perda está a personagem principal da trama, Jep Gambardella, um misto de
tédio, tristeza, nostalgia, que assiste à ilusão de vida em que ele e seus
amigos estão mergulhados, mas ainda busca uma réstia de luz em um país
assombrado, oscilando entre o desejo de desaparecer e o de encontrar respostas
nas obras de arte que outrora eram sagradas, verdadeiras relíquias. Hoje se
mostram ao alcance de todos, escancaradas, e como disse Céline, na citação que
abre o filme, qualquer um pode fazer o mesmo, empreender a viagem da ilusão e
da imaginação, é só fechar os olhos. Será mesmo assim?
O
sentido das produções artísticas contemporâneas é uma questão que se lança à
discussão em A Grande Beleza ao longo de seu desenvolvimento, filme do diretor
Paolo Sorrentino, e tem forte apelo em algumas cenas específicas. A arte hoje
se coloca para artistas e seus apreciadores como uma viagem imaginária ao fim
da noite de Céline, uma viagem que vai da vida à morte e é necessário levar às
ultimas consequências um carpe diem
inesgotável de sensações absolutamente epidérmicas e rasas.
A película gera
indagações sobre a qualidade e sentido da arte produzida nos dias atuais, elas
não se curvam à valorização de obras de arte do passado, tampouco à música que
nega a possibilidade de relação entre prática humana e uso de aparatos
tecnológicos.
Os
tempos contemporâneos de crise nos impelem a entender que a arte não pode
fingir estar à parte, e num pedestal lançar suas luzes ao lamaçal trevoso. Não
se trata de sacralizar as obras diante da existência cruel do mundo, pois em
sua essência está a negatividade fundante, o germe que permite a elas trafegar
no desencantamento, fazendo parte dele, enquanto o criticam. Essa tensão é o
que se perde na performance efêmera que polariza o efeito expressivo do
ato-obra e ignora o princípio da construção, ou a sua utopia. A dialética
oscilante entre os dois princípios, o da construção e da mimese (expressivo)
não pode suportar o exagero do ato que se transforma em caricatura da expressão
ou a negligência para com o trabalho, com a técnica, com o investimento na
forma final.
Muitas
cenas evocam essa discussão. O
questionamento sobre o sentido da arte na contemporaneidade, em suas
manifestações sonoras e visuais, as atravessa. A preocupação da modificação
material deslocada para o corpo explorado, que lamuria, o corpo que sofre a
violação, o perigo da morte ou do ferimento, parecem querer renovar a proposta
de entretenimento, entrelaçando-o com algo que carrega a aparência de arte
opulenta, porém vazia e superficial. É a queda vertiginosa em um abismo que não
parece oferecer redenção, embora aparentemente essa redenção esteja de pronto
dada pelas performances das próprias obras. Estamos falando de outro tipo de
entretenimento? Um entretenimento mais sofisticado que por vezes se faz
confundir com arte de qualidade?
A aposta
do filme baseada na elaboração de uma crítica ácida encontra seu ponto de
inflexão posterior no que seria sua proposta diante da decadência mostrada de
diferentes maneiras, a esperança de um saber sensível em cuja essência busca-se
a discussão do humano. A grande beleza estaria na feiura da arte sensível, sem
a afetação do espetáculo, feita de fragilidades e passível de questionamento,
constituída de um saber que transpira investimento, estudo, labuta, erros, mas
que transforma perguntas em sentidos, busca incessantemente por respostas, pela
tentativa sem trégua, sem necessidade do escândalo, e muitas fezes feita de
silêncios e medos.
(trechos do ensaio Em busca de sentidos na produção
artística contemporânea: fragmentos sobre o saber sensível no filme A Grande
Beleza)
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